Quando eu era criança, adorava sentar no colo do meu falecido Pai e ouvir ele contar as estórias de quando ele era criança e de tudo o que meu Avô e minha Avó passaram para criar ele e os seus 9 irmãos, de ver ele mostrar orgulhoso um casaco branco da Marinha do Brasil e as fotos relembrando as estórias dos anos que serviu como Fuzileiro Naval (as mesmas que me faziam dizer orgulhosa que seria "guerrilheira" quando crescesse ^^)...de como ele tinha orgulho de ser o que era e de ser quem era, apesar de não ter muito dinheiro, nem casa própria nem nada do tipo, o que realmente ficou como legado foi o seu caráter e ele sempre se esforçou muito para passar a importancia de se ter isso ao longo da vida à mim e aos meus irmãos, não importa-se o caminho que decidíssemos tomar.
Lembro-me de com 5 ou 6 anos quando íamos passear, ele fazer questão de me chatear ao me dizer baixinho com um sorriso contido no rosto quando via alguma mulher bonita o termo: "bicho-bom" só para me ver retrucar furiosa: - Nãoo!! "bicho-feioo"... ria alto e me pegava no colo me abraçando apertado. Se eu fechar os olhos por um instante sequer posso sentir sem demagogia o cheiro de meu Pai, o calor do toque, e o amor que havia naquele gesto simples.
Dentre os 4 filhos de meus pais, fui a única filha mulher e tinha algumas vantagens perante os demais...meus 2 irmãos mais velhos contam que no dia em que nasci, contentes querendo comemorar a minha chegada e ansiosos para saber o que era o bebê, ao confirmarem que era uma menina comemoraram em um banhado que havia perto da casa onde morávamos em pleno frio de 11 de Agosto, atirando lama um no outro, pulando e rolando na àgua gritando: É MENINA!!É MENINA!!
Mas que me “odiaram pra toda vida” loguinho depois porque apanharam assim que chegaram em casa imundos de lama. Até hoje ouço entre risos que já nasci incomodando. (risos)
De repente me bateu uma saudade do meu Pai; saudade de ser criança; de correr que nem guri atrás dos meus Irmãos...saudade do colinho da minha Mãe que apesar de austera conseguia ser doce e amável; saudade de ser balançada bem forte pelo meu Pai sentada na cadeira de balanço da pracinha; saudade de cantar por horas em cima da árvore de “cinamomo” da casa do meu falecido Tio Orlando até alguém gritar: Já pra dentro gralha!! ; Saudade de esculhambar as “bolitas” (bolinha de gude) coloridas e de tamanhos variados dos meus irmãos, que aos meus olhos curiosos eram a coisa mais perfeita do universo e depois dizer: -NÃO FUI EU!!
Saudade de brincar de carnaval de lata com latinhas de azeite amarradas nos pés, de tocar campainhas nas casas e sair correndo.... e após quase afogar meu irmão mais novo com a mamadeira de chá correr desvairada em volta da mesa da cozinha sabendo que quando parasse levaria mais palmadas do que as tantas que a minha mãe já havia me prometido.
Saudade de ter aquele brilho nos olhos que só se tem quando se é criança, de ter a ingenuidade de ao deitar para dormir, imaginar uma redoma em volta de sua casa onde nenhum mal seria capaz de afetar a seu Pai, sua Mãe e seus Irmãos...de tentar barganhar com Deus que se algum mal não pudesse ser evitado e tivesse que vir que me afeta-se 1º antes de afetar os demais, para que não sofresse por ver qualquer um deles sofrer.
Saudade dessa menina que se transformou em uma mulher e foi perdendo a doçura ao longo dos anos... mas a vida é assim mesmo, a vida é um ciclo, uma roda gigante onde tudo se transforma o tempo todo, tudo começa, termina e recomeça para depois terminar outra vez.
“Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz.
Sem tirar o ar, sem se mexer, sem desejar como antes sempre quis.
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.
Lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz.
Se chorar, chorar é vão porque os dias vão pra nunca mais.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e depois dançar, na chuva quando a chuva vem.
Tem vez que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar.
Nessa hora fique firme, pois tudo isso logo vai passar.
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e dançar.
Dançar na chuva quando a chuva vem.”
(Letra da Música Felicidade - Marcelo Jeneci)
